no fim do sombrio e úmido túnel
eu encontrei o velho xamã
ele entoou um cântico e me estendeu a mão esquerda
a fumaça de seu cachimbo no ar
desenhava a figura do grande corvo
e atravéz de seus nigérrimos olhos
pude voar a noite escura
o mantra da morte havia começado…
os reis pinheiros da floresta tentavam
me abraçar com seus tentáculos seivais
mas meu vôo era rasante e
somente os roedores sentiam o hálito de meu bater de asas
à beira do lago de vinho encontrei a minha vítima:
uma ninfa de cabelos de fogo que
ao som da flauta do deus-chifrudo dançava em rodopios encantados
à baco faziam-se noturnas oferendas
mas nesta noite o banquete sofreria um assalto inesperado
hoje eu era a negra-ave!
em círculos fiz meu último vôo
fiz-me o dançarino dos ares
e acompanhei a jovem que me sorria numa última valsa
como num cortejo final arranquei-lhe os olhos com minhas garras
e pus-me a alcançar a lua
que naquela noite me serviria de ninho…

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